A Pequena Filósofa e o Pequeno Poeta
Este é o conto sobre uma pequena filósofa e um pequeno poeta, que por algum motivo, ou por motivo nenhum, um dia do nada ou por acaso se encontraram.
A pequena filósofa vivia uma vida simples e bela, tentando entender as pessoas e encontrar profundidade. Ela conhecia a luz e, na luz, fazia sombras para compreender o que havia neste mundo.
Já o pequeno poeta vivia uma vida solitária, cheia de profundidade, tentando encontrar a beleza. Ele conhecia a luz, mas das sombras da luz transformava a beleza.
E um dia, a pequena filósofa encontrou o pequeno poeta.
Ela o encontrou sentado à margem de um caminho que não levava a lugar algum e, ao mesmo tempo, parecia levar a todos os lugares.
— O que fazes? — perguntou ela.
— Procuro a beleza — respondeu o pequeno poeta.
A pequena filósofa inclinou a cabeça.
— E onde a procuras?
Ele olhando para uma pedrinha no chão.
— Nas coisas quebradas.
Ela sorriu.
Aquilo lhe pareceu estranho.
Durante toda a sua vida, a pequena filósofa observava a luz para compreender as sombras. Queria saber por que as pessoas amavam, por que partiam, por que choravam, por que permaneciam, por que eram como eram.
Mas o pequeno poeta fazia o contrário.
Ele observava as sombras para compreender a luz.
Onde os outros viam ruínas, ele via histórias.
Onde os outros viam cicatrizes, ele via jornadas.
Onde os outros viam finais, ele via poemas.
E assim começaram a caminhar juntos.
A pequena filósofa fazia perguntas.
Muitas perguntas.
Perguntas sobre o tempo.
Sobre a saudade.
Sobre as estrelas.
Sobre os sonhos.
E o pequeno poeta nunca respondia diretamente.
Talvez ele não soubesse de fato como respondê-la.
Transformava cada resposta em uma pintura tingida ao ar com palavras.
— O que é a saudade?
— É o eco de um abraço que ainda mora dentro da gente, cujo calor ainda se sente, mas já não se pode tocar.
— O que é o tempo?
— É um rio que carrega flores e folhas secas sem perguntar qual delas era mais importante. Como a água que atravessa o rio e a pedra que permanece em seu caminho, até que a pedra seja levada, porém o rio continua, como se ela jamais tivesse permanecido ali.
— O que é o amor?
O pequeno poeta ficou em silêncio por um instante.
Depois respondeu:
— Talvez seja quando duas pessoas olham para a mesma luz e enxergam mistérios diferentes, mas a resposta esteja na luz que emana dos olhares delas quando finalmente se encontram, depois de não saberem por muito tempo o que procuravam.
A pequena filósofa pensou naquilo durante muitos dias.
E, sem perceber, começou a gostar das respostas do poeta.
Porque ele revelava o simples em beleza.
E o pequeno poeta começou a gostar das perguntas da filósofa.
Porque ela transformava a beleza em significado.
Foi então que ambos descobriram algo curioso.
Ela passara a enxergar mais beleza onde antes havia apenas mistérios.
Ele passara a enxergar mais profundidade onde antes parecia haver somente o raso.
E, pela primeira vez, compreenderam que a luz não existia para criar apenas sombras.
Nem as sombras existiam apenas para revelar a luz.
Às vezes, a luz encontrava a luz.
E brilhava mais.
Então o pequeno poeta passou a lhe perguntar.
E aquilo foi estranho.
Porque, até então, era a pequena filósofa quem carregava os bolsos cheios de perguntas.
Mas naquela tarde, enquanto o vento brincava com as folhas secas do caminho, o poeta olhou para ela e disse:
— Posso perguntar algo?
A pequena filósofa sorriu.
— Finalmente.
O pequeno poeta respirou fundo.
— Como sabes quando alguém é verdadeiro?
Ela ficou em silêncio, mas havia um grande brilho em seu olhar.
Pela primeira vez, era ela quem procurava palavras.
Depois respondeu:
— Quando a pessoa não tenta parecer luz o tempo todo. Quando ela tem coragem de mostrar as próprias sombras.
O pequeno poeta guardou aquela resposta como quem guarda uma pedra preciosa encontrada no fundo de um rio.
Então perguntou novamente:
— E como sabes quando alguém é importante?
A pequena filósofa observou o horizonte.
— Quando sua ausência continua conversando conosco mesmo depois que ela vai embora.
O poeta abaixou os olhos.
Aquilo lhe pareceu bonito.
Bonito e um pouco perigoso.
Porque algumas respostas possuem a estranha capacidade de encontrar lugares dentro de nós que nem sabíamos existir.
E continuaram caminhando.
Até que, certo dia, o pequeno poeta fez uma pergunta que nem ele sabia que carregava.
— O que acontece quando alguém passa a fazer parte dos nossos pensamentos?
A pequena filósofa sorriu.
Dessa vez, demorou ainda mais para responder.
— Acho que essa pessoa se torna uma espécie de lar.
— Um lar?
— Sim. Não um lugar onde moramos. Um lugar para onde sempre voltamos.
O pequeno poeta não disse nada.
Porque, naquele instante, percebeu algo curioso.
Ele havia passado a transformar as perguntas dela em poemas.
Mas agora começava a transformar as respostas dela em saudade.
Foi então que a pequena filósofa lhe perguntou:
— E tu, pequeno poeta... o que procuravas quando começaste tua jornada?
O poeta observou a luz atravessando os galhos das árvores.
Depois respondeu baixinho:
— Eu procurava a beleza.
— E a encontraste?
Ele olhou para ela.
E, pela primeira vez desde que haviam se conhecido, respondeu sem metáforas.
— Acho que sim.
A pequena filósofa sentiu o coração tropeçar.
E ambos voltaram a caminhar.
Sem dizer mais nada.
Porque existem momentos em que as palavras finalmente chegam ao destino.
E, quando isso acontece, o silêncio continua a conversa.
Então o pequeno poeta perguntou:
— E tu, pequena filósofa... achaste o que procuravas?
Ela parou de caminhar.
Ficou olhando para o horizonte.
Como quem observava uma pergunta muito antiga.
Então sorriu.
Um sorriso pequeno.
Mas verdadeiro.
— Quando comecei minha jornada, eu queria entender as pessoas.
O pequeno poeta ouviu em silêncio.
— Queria entender por que os corações mudavam. Por que alguns permaneciam e outros partiam. Por que às vezes a felicidade vinha vestida de tristeza. E por que algumas dores pareciam ensinar mais do que as alegrias.
Ela abaixou os olhos.
— Passei anos procurando respostas.
— E encontrou?
A pequena filósofa riu baixinho.
— Não.
O poeta pareceu surpreso.
Ela continuou:
— Encontrei perguntas melhores.
Os dois sorriram.
Mas havia algo mais.
— Sabe, pequeno poeta... durante muito tempo achei que procurava profundidade.
Achei que procurava respostas.
Achei que procurava sentido.
Mas talvez eu estivesse procurando alguém que me ajudasse a enxergar tudo isso de outra forma.
O pequeno poeta permaneceu em silêncio.
— Porque há mistérios que se compreendem sozinho.
Mas há mistérios que só revelam sua beleza quando compartilhados.
Ela ergueu os olhos para ele.
— Então não encontrei tudo o que procurava.
Porque ainda existem muitas perguntas.
Muitos caminhos.
Muitos horizontes.
Mas encontrei algo que não sabia que procurava.
— E o que foi?
A pequena filósofa sorriu.
— Alguém que transformou minhas respostas em perguntas ainda mais bonitas.
O pequeno poeta sentiu o coração tropeçar outra vez.
Então a pequena filósofa perguntou:
— Pequeno poeta... por que escreves?
Ele sorriu.
— Porque tenho medo.
— Medo?
— Medo de esquecer.
E explicou:
— Escrevo porque algumas coisas são bonitas demais para desaparecer. Porque alguns instantes passam tão rápido que parecem sonhos. Porque certas pessoas atravessam nossa vida como estrelas cadentes e eu não quero perdê-las para o tempo.
Então ela perguntou:
— E funciona?
O poeta olhou para as próprias mãos.
— Não.
Ela franziu a testa.
— Não?
— Nada fica. As flores murcham. Os dias passam. As pessoas partem. As páginas envelhecem.
Mas ele sorriu.
— Porém, por um instante, funciona. E às vezes um instante é uma eternidade disfarçada.
A pequena filósofa sentiu algo aquecer dentro do peito.
Então perguntou, quase num sussurro:
— E se um dia eu partir?
O pequeno poeta deixou que o tempo escrevesse.
Porque algumas coisas não pedem velocidade...
Pedem verdade.
Então respondeu:
— Então tu te tornarás poesia.
— Poesia?
— Sim. Porque algumas pessoas passam por nossa vida. Outras permanecem nela. Mas existem aquelas raras que se transformam na forma como passamos a enxergar o mundo.
E essas nunca vão embora de verdade.
Elas continuam existindo nos lugares que tocaram.
Nos pensamentos que mudaram.
Nas perguntas que deixaram.
Nos silêncios que ensinaram.
A pequena filósofa abaixou os olhos.
E, pela primeira vez, não encontrou nenhuma pergunta.
Porque havia descoberto algo curioso.
O pequeno poeta passara a morar em suas respostas.
E ela passara a morar nos poemas dele.
E enquanto caminhavam pelo caminho que não levava a lugar algum e, ao mesmo tempo, levava a todos os lugares, o pequeno poeta sorriu e disse:
— É como se antes eu subisse sozinho uma montanha apenas para contemplar o nascer do sol...
A pequena filósofa ouviu.
— Mas, ao chegar ao topo e acreditar que não havia luz alguma, todo o universo começasse a cintilar ao redor daquela pequena montanha, anunciando silenciosamente o princípio do amanhecer.
A pequena filósofa não respondeu.
Porque algumas palavras são tão belas que qualquer resposta as diminuiria.
E continuaram caminhando.
Lado a lado.
Sem pressa.
Sem destino.
Como duas estrelas que, depois de viajarem sozinhas por uma eternidade, descobriram que compartilhavam o mesmo céu.
Pela primeira vez, nem o pequeno poeta procurava a beleza.
Nem a pequena filósofa procurava profundidade.
Porque ambos haviam encontrado alguém com quem valia a pena continuar procurando.
E enquanto o mundo seguia seu curso, o tempo corria para o mar e as estrelas acendiam seus antigos lampiões sobre a noite, eles seguiram caminhando.
Talvez para lugar nenhum.
Talvez para todos os lugares.
Mas juntos.
E, às vezes, isso é tudo o que um coração realmente procura.
Fim.
Conto de Lincoln Daniel C. S.
Observação do Autor
Há uma curiosidade acerca desta história.
Deixe-me revelar...
Desde os tempos antigos, poetas e filósofos parecem caminhar por estradas diferentes.
Os filósofos procuram compreender a luz.
Os poetas procuram contemplá-la.
Uns buscam respostas.
Outros buscam significado nas perguntas.
Uns tentam explicar o mundo.
Outros tentam transformá-lo em beleza.
Talvez por isso exista, entre eles, um desencontro tão antigo quanto as próprias palavras.
Mas gosto de imaginar que, de vez em quando, em algum caminho que não leva a lugar algum e, ao mesmo tempo, leva a todos os lugares, um poeta encontra uma filósofa.
E então ambos descobrem algo inesperado.
Que a verdade pode ser bela.
E que a beleza também pode ser verdadeira.
Talvez o pequeno poeta e a pequena filósofa nunca tenham encontrado todas as respostas.
Talvez nunca tenham alcançado o fim da caminhada.
Mas encontraram algo raro:
alguém com quem valia a pena continuar procurando.
— Lincoln Daniel C. S.
Comentários
Postar um comentário