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MIL FORMAS DE DIZER

Mil Formas de Dizer Conto de Lincoln Daniel C.S. Não, não leia com tristeza, leia com alegria e vibração de alguém que experimenta voar pela primeira vez, seja de avião ou de parapente, leia com vida e a potência da vida. Mil Formas de Dizer — Parte I Algumas vezes, a vida nos entrega sementes. Pequenas coisas que chegam sem aviso. E cabe a nós regá-las, cuidar delas e esperar. Nem sempre acreditamos que irão crescer. Pelo contrário. Muitas vezes pensamos: "Como algo bom poderia finalmente acontecer comigo?" Ou: "Isso é bom demais para ser verdade." Talvez porque já tenhamos visto promessas demais secarem antes da primavera. Mas, de vez em quando, Deus nos surpreende. E nos concede exatamente aquilo que desejávamos havia tanto tempo, que já não acreditávamos que pudesse acontecer. Não porque deixamos de desejar. Mas porque havíamos aprendido a viver sem esperar. E então, quando menos percebemos, a semente começa a florescer. Mesmo no meio do inverno... Algumas pesso...

A Folha que perguntava

Havia uma folha de uma árvore que via todas as outras folhas. Quando ficavam velhas, elas se soltavam. Cheia de perguntas, ela mesma resolveu, mesmo tão jovem, se soltar para perguntar ainda mais. E o vento a levou por diversos lugares. Ela encontrou uma raposa e lhe fez uma pergunta. E a raposa lhe deu uma resposta. Insatisfeita, o vento a levou até um lobo e, novamente, ela perguntou. E o lobo respondeu. Os ventos a levaram até uma lagarta. E, perguntando à lagarta, a lagarta respondeu. Mas, ainda insatisfeita, os ventos a levaram embora e, alguns dias depois, a trouxeram de volta. Uma bela borboleta voava por ali. Não sabia ela que aquela borboleta era a própria lagarta. Então perguntou à borboleta. E a borboleta disse: — Novamente lhe digo o que disse antes. Mas agora, por outra perspectiva, lhe digo o mesmo, embora já diferente. E o vento a levou. De repente, ela caiu em um rio. Ali perguntou aos peixes que moravam naquelas águas. E os peixes, um a um, iam respondendo suas inúmera...

O Autor e seus contos

Pois este é o conto do escritor que escreve. O escritor sentou-se para escrever as ideias que dentro dele criavam um grande rebuliço. Não que ele tivesse parado para pensar e estruturá-las. Elas simplesmente surgiam em sua mente e o deixavam inquieto até que fossem materializadas e viessem a este mundo. Conto após conto, história após história, tudo o que o escritor escrevia revoltava-se contra ele, como se ele quisesse expressar algo, mas todas aquelas histórias dissessem o contrário. Então o escritor parou. Escreveu um poema. E esse poema lhe mostrava exatamente isso. Então voltou a escrever mais um conto. E o conto é este que você mesmo lê agora. Todas as histórias se tornam uma ponte. E elas trazem consigo uma passagem ou uma parede. E, às vezes, as duas coisas. E essas duas coisas caem sobre o escritor como um oceano em meio aos deuses, rompendo entre trovões e relâmpagos para que a verdade apareça. E talvez as respostas nunca cheguem. Ou talvez todas as respostas já lhe tenham si...

As Duas Rochas

Havia uma montanha que estava sempre em meio à nevasca. Nessa montanha havia rochas, e entre elas duas conversavam. Uma delas habitava aquele lugar há muito tempo e já se sentia acostumada à rotina dali. A outra era mais recente e procurava respostas. E, mesmo sem sair do lugar, com suas perguntas já havia andado meio mundo. Perguntava a rocha mais nova à mais velha: — Por que a vida? Por que os céus? Se devo ir ou não? Se devo partir ou voltar? Se tenho desejo de ir, mas, partindo e indo, quero voltar? A outra rocha já estava enfadada de tantas perguntas para as quais ninguém possuía resposta alguma que sossegasse ou saciasse aquela jovem rocha. Então, cansada de ouvir tantos questionamentos, a velha rocha disse: — Há perguntas que só podem ser respondidas vivendo. A rocha mais jovem ouviu aquilo e entendeu. Sabendo que era isso, finalmente, o que lhe bastava saber, ela se jogou dali mesmo, montanha abaixo, naquela mesma hora. Enquanto rolava, uma tempestade de neve, causada por sua q...

A Pequena Nuvem

Nuvens começaram a se formar no céu, brancas como a neve, parecendo algodão-doce. Elas se juntavam, tornavam-se grandiosas e densas, cada vez mais escuras, e então choviam e se dissolviam. Ali, suas histórias acabavam para que outras histórias pudessem começar. Mas uma nuvem se negou. — Por que eu tenho que chover agora? Por que já tenho que me dissolver? Pois eu me nego. E as outras nuvens disseram: — Você está louca? Maluca? Você foi feita para chover, e está na hora de ir. E ela respondeu: — Pois bem, sei que para isso vim a este mundo. Mas não é isso o que permitirei que me aconteça agora. Então aquela nuvem deixou que o vento a levasse. O vento a levou por montanhas, por cidades, por vales e por vilas; de um país para outro, até que chegou ao oceano. Ali, as correntes de ar marítimas foram carregando-a cada vez mais adiante. E, cada vez maior e mais cheia, ela seguia sem saber exatamente para onde os ventos a levariam. Cada vez maior e cada vez mais cheia, era como se suportasse u...

O Homem, a Fogueira e a Rede

Havia uma rede, e um homem. E esse homem balançava na rede. Havia uma fogueira, e ela sempre queimava, sem jamais se apagar. E o homem pensava: — Quanto tempo devo esperar para viver aquilo que já sei que desejo viver? E os dias passavam. E ele pensava: — Quanto tempo devo esperar para viver aquilo que já sei que desejo viver? E os dias passavam. E ele pensava: — Quanto tempo devo esperar para viver aquilo que já sei que desejo viver? Então, de repente, a fogueira apagou. E ele se levantou. Fim Conto de Lincoln Daniel C.S.

O Velho Peixinho

Este é o conto do Velho Peixinho, que, depois de muito tempo e de uma longa vida dedicada a procurar alimento e a alimentar-se, viveu sempre buscando mais, sempre tendo sonhos para a vida. Até que um dia, em sua velhice, conseguiu ter, de forma abundante, aquilo que durante toda a vida teve em escassez. De repente, no final da vida, conseguiu, em abundância, em grande quantidade, aquilo que desejou por uma vida inteira. E começou a comer, e a comer, e a comer. E, se ninguém o parasse, comeria até morrer. Porque o peixe, como todos bem sabem, morre pela boca. Enquanto comia e se entupia, ele entendeu. Viveu uma vida inteira dedicada a encontrar comida e a comer. Em vez de comer para viver, vivia para alimentar-se. E, ao final de sua vida, poderia encontrar o seu fim de forma tão prazerosa, porém mortífera, alimentando-se até que não houvesse mais espaço sequer para respirar. Foi então que, diante de toda aquela comida, decidiu que, pelo tempo que lhe restasse, não viveria mais para come...