MIL FORMAS DE DIZER
Mil Formas de Dizer
Conto de Lincoln Daniel C.S.
Não, não leia com tristeza, leia com alegria e vibração de alguém que experimenta voar pela primeira vez, seja de avião ou de parapente, leia com vida e a potência da vida.
Mil Formas de Dizer — Parte I
Algumas vezes, a vida nos entrega sementes.
Pequenas coisas que chegam sem aviso.
E cabe a nós regá-las, cuidar delas e esperar.
Nem sempre acreditamos que irão crescer.
Pelo contrário.
Muitas vezes pensamos:
"Como algo bom poderia finalmente acontecer comigo?"
Ou:
"Isso é bom demais para ser verdade."
Talvez porque já tenhamos visto promessas demais secarem antes da primavera.
Mas, de vez em quando, Deus nos surpreende.
E nos concede exatamente aquilo que desejávamos havia tanto tempo, que já não acreditávamos que pudesse acontecer.
Não porque deixamos de desejar.
Mas porque havíamos aprendido a viver sem esperar.
E então, quando menos percebemos, a semente começa a florescer.
Mesmo no meio do inverno...
Algumas pessoas acreditam que as palavras servem para explicar, será mesmo?
Eu nunca consegui acreditar nisso, não de maneira inteira; é claro que explicam muito, mas não só para isso servem.
Talvez porque as coisas mais importantes da minha vida nunca tenham cabido dentro delas. Por mais que eu até tentasse escrevê-las e reescrevê-las, nunca conseguiam suportar o peso de uma vida dentro de uma caneca, a própria caneca caía da minha mão, desastrado demais.
A saudade não cabe.
O medo não cabe.
A esperança não cabe.
E o amor, principalmente o amor, parece escapar pelas bordas de qualquer frase que tente contê-lo. Eu mesmo me esforcei anos para entendê-lo, e somente quando conheci o seu Autor, pude começar a entender, quando aquele que pelo ódio buscava, se tornava homem de paz.
Por isso as pessoas escrevem poemas, ou talvez o que eu mesmo tenha aprendido. Devo confessar que até começar a escrever, eu quase odiava poemas...
Não para dizer, com eles...
Mas para chegar perto.
Durante muito tempo achei que a poesia fosse uma forma de esconder coisas, ou de dizê-las de outra forma.
Hoje penso diferente.
A poesia não esconde.
A poesia protege.
Pois existem sentimentos tão frágeis que morreriam quando expostos diretamente à luz do sol, por um pequeno instante.
Como flores arrancadas da terra, muito belas, mas murcham, e morrem. Há quem diga: "Amei tanto aquela flor que ao invés de arrancá-la do chão a deixei em paz."
Como sonhos contados cedo demais, que alguém caçoou.
Como certas palavras que, uma vez ditas, jamais podem voltar para dentro da boca, e seu fruto vem, sendo belo ou devastado, muitas vezes belo.
Mas devo confessar, pouco é pelo medo. Claramente tudo que fazemos na vida apostamos a nós mesmos, e na verdade o "não" eu sempre tive, desde que a vi tanto tempo atrás, mas tantas coisas aconteceram...
Ah, deixei em paz lá...
Foi assim que comecei a escrever...
Não porque tivesse algo a ensinar.
Mas porque havia algo que eu não conseguia dizer.
E eu não dizia, porque algumas coisas valem por serem raras, não pelo muito dizer.
Pelo menos para dizer a primeira vez, eu queria que fosse algo tão memorável que mesmo um dia tão distante de hoje, ela ainda lembrasse. Que não risse uma vez, mas mil vezes de mil Formas diferentes.
Então escrevi histórias, que poucos conheceram.
Escrevi músicas, que ninguém ouviu.
Escrevi cartas que nunca entreguei.
Escrevi pensamentos que ninguém leu.
E, sem perceber, fui espalhando a mesma frase por toda parte.
Escondida.
Disfarçada.
Fragmentada.
O Enigma, que para antes de revelá-lo em poesia, eu precisava revelar para mim mesmo.
Como se cada texto fosse apenas um pedaço de um quebra-cabeça que eu mesmo não sabia montar.
A minha paciência é grande, tanto quanto a pressa de se viver o que quer. Mas construir algo leva tempo, e para que eu dissesse o que eu queria desde o primeiro dia, eu precisaria escavar, construir, moldar e ser moldado por aquilo que eu queria tanto dizer, para que não fossem três palavras assim ao ar.
Até que um dia encontrei uma pequena filósofa.
E, pela primeira vez, tive medo de que alguém entendesse.
Mil Formas de Dizer — Parte II
A Pequena Filósofa
Não a encontrei como os poetas costumam encontrar suas musas.
Não houve tempestade.
Não houve música.
Não houve estrelas alinhadas nos céus.
Na verdade, quando a encontrei, eu estava ocupado demais pensando em outras coisas.
E talvez tenha sido exatamente por isso que a encontrei, talvez até tenha demorado anos para saber.
E mesmo assim o tempo passou, muitas estrelas brilharam no céu, até que eu visse aquele pôr do sol pelos seus olhos, e esse dia era hoje.
As melhores coisas da vida possuem esse estranho hábito de chegar quando paramos de procurá-las, de repente, quando já não se espera, quando não se sabe; quando, do nada, sem avisar, chega.
Primeiro vieram as conversas.
Conversas comuns.
Ou pelo menos pareciam comuns.
Falávamos sobre livros.
Sobre Deus.
Sobre a vida.
Sobre perguntas que ninguém fazia.
E sobre respostas que ninguém possuía.
Lembro-me de uma estranha sensação que surgia sempre que falávamos.
Eu tinha a impressão de que ela pensava os pensamentos até o fim.
Hoje isso parece algo simples.
Mas não é.
A maioria das pessoas abandona uma ideia quando ela se torna difícil.
Ela não.
Ela continuava caminhando.
Mesmo quando a estrada desaparecia.
Talvez por isso eu a chamasse de Pequena Filósofa.
Não porque tivesse todas as respostas.
Mas porque ainda amava as perguntas, e onde elas poderiam levar, quando muito bem pensadas, a vida que poderia surgir.
E existe algo muito belo em quem continua perguntando.
Durante meses falamos sobre histórias.
Algumas escritas por outros.
Outras escritas por nós mesmos.
Lemos sonhadores.
Lemos peregrinos.
Lemos homens perdidos dentro da própria imaginação.
E, sem perceber, comecei a notar algo estranho.
Muitas das histórias que discutíamos pareciam falar sobre mim.
Era como olhar para um espelho escondido dentro de um livro.
Quanto mais páginas virava, mais encontrava rastros de mim mesmo. Quando isso acontece, dá vontade de fugir, não?
E quanto mais falava com ela, mais difícil se tornava fingir que eu não via.
Eu não queria falar sobre mim, eu queria saber mais dela.
Foi então que percebi um problema.
Passei anos escrevendo.
Mas nunca havia aprendido a dizer.
E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
Pois escrever é esconder uma verdade em mil formas diferentes.
Dizer é permitir que ela seja encontrada.
E eu ainda não sabia se possuía coragem para isso.
Mil Formas de Dizer — Parte III
Noites Brancas
Foi ela quem me convenceu a ler o livro.
Ou talvez não tenha sido um convencimento.
Talvez tenha sido apenas uma conversa.
As grandes mudanças costumam entrar pela porta dos fundos.
Muitas vezes, nem pela porta mesmo.
Elas pulam o muro, quebram a janela, e tudo fica escancarado.
Eu nunca quis mostrar o que não era.
Não queria mostrar alguém perfeito.
Não sou perfeito, sou real, e realmente nunca disse não ter medo. Pelo contrário, eis minha vulnerabilidade: eu sou medroso. Nem digo que era, digo que sou mesmo. Talvez nunca deixe de ser, mas sou um medroso que luta contra os medos, talvez sejam eles que tenham me levado tão longe...
O medo de errar não me travou, apenas aperfeiçoou aquilo que realmente não queria estragar.
Era ele a quem eu sempre devia superar.
Ninguém percebe quando chegam esses dias em que tudo muda.
Um dia você está vivendo normalmente.
No outro está atravessando páginas que parecem ter sido escritas sobre você.
Foi assim com Noites Brancas.
No início encontrei um homem que falava demais.
Pelo menos era isso que a Pequena Filósofa dizia.
E talvez estivesse certa.
O Sonhador falava como quem passou tempo demais sozinho.
Como alguém que guardou palavras durante anos e, ao encontrar um ouvinte, resolveu despejar todas elas de uma só vez.
Talvez essa beleza que ele tinha e dizia ter não fosse tão bela, fosse seu medo de viver, um medo o qual ele não queria encarar...
Mas o que mais me assustou não foi o quanto ele falava.
Foi o quanto eu o compreendia.
Havia algo desconfortável nisso.
Como encontrar um estranho usando suas roupas.
Como ouvir sua própria voz saindo da boca de outra pessoa.
Página após página, o Sonhador caminhava pela cidade carregando mundos inteiros dentro da cabeça.
E eu o seguia.
Não porque concordasse com tudo.
Mas porque reconhecia aquele caminho.
Eu também havia passado anos habitando histórias.
Anos conversando com personagens.
Anos escrevendo perguntas para as quais não possuía resposta.
E então surgiu uma ideia terrível.
Talvez os homens mais solitários não sofram pela ausência das pessoas.
Talvez sofram pelo excesso de imaginação.
Pois a imaginação possui um poder quase infinito.
Ela constrói castelos.
Constrói futuros.
Constrói diálogos que jamais aconteceram.
Constrói amores que jamais existiram.
E também destrói tudo mil vezes, assim como cria mil e uma vezes.
E, às vezes, quando a realidade finalmente chega, ela encontra a casa já ocupada pelos sonhos.
Sonhos e mais sonhos longe de serem realizados.
Foi uma conversa com a Pequena Filósofa que me fez perceber isso.
Falávamos sobre o livro.
Sobre o Sonhador.
Sobre a moça.
Sobre a forma como ele parecia enxergar nela mais do que ela realmente era.
Então uma pergunta nasceu dentro de mim.
Talvez o maior perigo não seja amar alguém.
Talvez o maior perigo seja amar apenas a ideia de alguém.
Essa pergunta me perseguiu durante dias.
E quanto mais eu pensava nela, mais uma segunda pergunta surgia.
Uma pergunta muito mais difícil.
Se o Sonhador estava apaixonado por um sonho...
Então por que eu atravessava tantas páginas procurando não me tornar ele?
Será que havia algo de mim verdadeiramente nele, ou era aquele medo tentando me fazer romper mais uma barreira?
Mil Formas de Dizer — Parte IV
O Enigma
Terminei o livro numa tarde silenciosa.
Não houve revelação.
Não houve trovões.
Não houve conclusão.
A história acabava diferente do que começava, acabava com uma pancada abrupta.
Não houve uma voz vinda dos céus explicando o significado de tudo.
Fechei a última página.
Olhei para a capa.
E permaneci sentado.
Era estranho.
Passei dias acompanhando um homem que sonhava, e de repente o sonho acabou, e a minha vida não voltava, mas começava mais ainda.
Tive um belo sonho, e nele era tudo tão maravilhoso, pois sonhava que vivia, e quando acordei, descobri que realmente estava vivendo...
Mas ele...
Um homem que confundia a realidade com a imaginação.
Um homem que tentou segurar um instante para sempre.
E agora o livro havia terminado.
Mas a pergunta continuava ali.
A mesma pergunta.
Aquela que eu carregava muito antes de abrir a primeira página.
Como alguém diz aquilo que não consegue dizer?
Olhei para a estante.
Olhei para o livro, de repente já não era mais meu.
De repente, eu mesmo não era mais o mesmo.
Passamos tanto tempo tentando nos livrar da criança interior na adolescência que, quando terminamos a passagem por ela, de repente o certo é voltar a ser como antes.
Mais sincero ainda.
Olhei para a cidade do lado de fora da janela.
Aguardava algo chegar que nunca chegou.
Não naquele dia.
Pois não era para ser.
Tinha que ser aquele livro.
E não outro.
Então tive uma ideia.
Uma ideia pequena.
Tão pequena que quase não parecia uma ideia.
Escrever uma carta.
E eu já havia escrito ela desde o primeiro dia.
Mas agora era definitiva.
Pois não restaram dúvidas.
Não uma carta longa.
Eu já havia escrito cartas demais.
Não uma carta explicando tudo.
Eu já havia explicado demais.
Apenas uma folha dobrada.
Uma dedicatória.
E um enigma.
Passei mais tempo pensando no enigma do que gostaria de admitir.
Pois os enigmas possuem uma vantagem sobre as declarações.
As declarações entregam.
Os enigmas convidam.
E eu sempre gostei mais dos caminhos do que das chegadas.
Talvez por isso tenha me tornado escritor.
Ou peregrino.
Ou ambos.
Escrevi e não apaguei, do jeito que escrevi ficou.
Se a letra tremeu.
Não ia maquiar nem editar.
Risquei palavras.
Até que encontrei algo simples.
Tão simples que me pareceu ridículo.
Sorri sozinho.
Pois às vezes levamos anos para encontrar uma forma complicada de dizer algo simples.
Dobrei a folha.
Escrevi na frente:
"Para a Pequena Filósofa."
Abaixo:
"Porque ainda acho que algumas respostas só podem ser achadas vivendo."
Então abri a folha.
Escrevi:
"Eis um enigma."
E, pela primeira vez em muito tempo, não senti vontade de mudar mais nada.
O curioso é que o segredo não estava escondido no papel.
Nem nas palavras.
Nem no enigma.
O segredo estava no fato de que aquela pequena carta iniciava algo que eu há tanto queria ter dito, mas ali era finalmente o momento.
Não sei se ela mesma aguardou.
Tanto quanto eu.
Não sei se ela mesma se surpreendeu quando abriu e descobriu o que passei tantos dias dizendo, mas de forma que ela não entendesse.
Talvez eu já não fosse mais poeta coisa alguma, era um Parabolador igual o meu Senhor.
Que dizia em mistérios, para que chegando o tempo de se revelar à pessoa certa, com a atenção correta, soubesse que essa era a mensagem da cruz e sempre foi...
Pois durante muito tempo procurei mil formas diferentes de dizer a mesma coisa.
E naquela noite compreendi algo.
Talvez escrever nunca tenha sido uma tentativa de encontrar palavras.
Talvez escrever sempre tenha sido uma tentativa de encontrar coragem.
Na manhã seguinte eu atravessaria a cidade.
E, pela primeira vez, não sabia o final da história.
O que, para um escritor, é uma experiência assustadora.
Mas para um homem...
Talvez fosse exatamente o que se chama viver.
Mil Formas de Dizer — Parte V
A Travessia
A cidade parecia maior naquela manhã.
Talvez porque eu estivesse atravessando mais do que ruas.
O sol ainda não havia alcançado todas as janelas quando saí de casa.
Uma neblina densa.
Um frio inconfundível.
Um céu tão belo e azul.
Na mochila havia apenas algumas coisas simples.
Um livro.
Uma folha dobrada.
E um segredo.
Durante anos carreguei perguntas.
Naquele dia carregava uma resposta.
Que diferença, não?
O curioso é que a resposta pesava mais.
Durante o caminho imaginei dezenas de cenários.
Ela poderia sorrir.
Poderia não entender.
Poderia encontrar o enigma na mesma hora.
Poderia jamais encontrá-lo.
A imaginação, como sempre, trabalhava sem descanso.
Mas a minha sempre com leveza.
Como disse a princípio.
Não leia isso com melancolia.
Leia com a vibração de alguém.
Que escava e de repente encontra petróleo.
A alegria e potência em cada palavra.
Mas desta vez havia algo diferente.
Pela primeira vez, não tentei impedi-la.
Apenas a observei passar.
Passar, e passar.
Como quem observa nuvens atravessando o céu.
Pois algumas batalhas não precisam ser vencidas.
Precisam apenas deixar de ser travadas.
Quando cheguei, tudo parecia estranhamente comum.
Pessoas conversavam.
Crianças corriam.
Alguém ria ao longe.
O mundo continuava existindo sem saber que um homem havia atravessado a cidade carregando um enigma dentro da mochila.
E talvez essa seja uma das maiores lições da vida.
Nossos momentos mais importantes quase nunca parecem importantes para mais ninguém.
Passei o dia ali.
Conversando.
Ouvindo.
Observando.
Vivendo.
E, de tempos em tempos, sentia o peso do livro.
Como quem verifica se uma carta ainda está no bolso.
Como quem toca uma cicatriz antiga para ter certeza de que continua ali.
Então chegou o momento.
Não houve música.
Não houve discurso.
Não houve preparação.
Apenas estendi o livro.
Ela o recebeu.
Sorriu.
Agradeceu.
E o mundo continuou girando.
Foi só isso.
E, ao mesmo tempo, foi tudo.
Mais tarde me despedi.
Vi o pôr do sol pelos olhos dela.
Tão brilhantes que são.
E a luz dourada sobre sua pele.
Atravessei novamente a cidade.
O céu já começava a escurecer.
As luzes dos prédios acendiam uma a uma.
As ruas passavam pela janela.
E, pela primeira vez em muitos anos, percebi algo estranho.
Eu não estava pensando no que diria.
Não estava pensando no que deveria ter dito.
Não estava reescrevendo conversas.
Não estava corrigindo frases.
O livro já não estava comigo.
A carta já não estava comigo.
O enigma já não estava comigo.
E, de repente, compreendi.
Algumas histórias não terminam quando são escritas.
Terminam quando são entregues.
Ou melhor, nesse caso começam.
Encostei a cabeça na janela.
Fechei os olhos.
E sorri.
Pois depois de tantos anos procurando mil formas diferentes de dizer a mesma coisa...
A resposta já não me pertencia.
Ela pertencia à pequena filósofa.
E agora, pela primeira vez, eu não sabia o que aconteceria depois.
Pois não dependia de mim.
No final não foi sobre imaginar tudo, foi sobre descobrir devagar aquilo que é real.
Fim.
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